quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018



Cirurgia Hilária


Essa história aconteceu comigo há exatos trinta e um  anos, mas parece que foi ontem.

Não fiz nenhuma outra cirurgia depois disso, então, não sei se as coisas melhoraram desde então.

Bem, aos vinte e três anos, casada há quatro anos, decidimos que não queríamos ter mais filhos além dos nossos dois.  

Depois de muitas conversas com o médico tentando me convencer que era muito nova, que poderia perder um dos filhos, acabei por convencê-lo de fazer a esterectomia por laparoscopia( pelo umbigo).

E no dia seguinte, lá estava eu na clínica para o procedimento.  A coisa começou a complicar quando me deram aquela "batinha"  quase frente única curtíssima para vestir .  Não era momento para discutir a moda hospitalar, mas ao vesti-la pensei que estavam de brincadeira comigo!  Ela não protegia nada nem atrás e nem abaixo da cintura, isto é, apenas cobria o que você não queria esconder e o resto estava, como direi, devassado!

Como se não bastasse, trouxeram uma toca e dois sapatinhos de pano para vestir que completaram a figura grotesca que me tornei.  Se você está achando muito, ainda tem mais.  Isso aconteceu há três décadas e lembro como se fosse hoje!  Assim você tem ideia da situação!

A enfermeira entrou no quarto e apenas disse:  a sala de cirurgia fica no corredor à direita, segunda porta!

Confesso que fiquei esperando o momento que ela traria uma maca ou pelo menos uma cadeira de roda para me conduzir até lá, mas ela "jogou a bomba" e saiu.  Olhei pra o meu marido e disse: - Vou sair assim no corredor da clínica?    Ele me olhou como todo marido em situação perigosa e apenas concordou querendo não se envolver demais no caso!

Bem, vendo que não havia remédio para isso a  não ser enfrentar o corredor da humilhação, pedi que ele olhasse como estava o trânsito no corredor.  Sempre passava uma ou duas pessoas, mas estava calmo.

A batinha não colaborava para tornar o momento menos constrangedor, era de um tecido sem flexibilidade alguma.  Eu puxava para tampar o hemisfério sul, o hemisfério posterior ficava exposto.  Descobri que a melhor forma era andar curvada para frente e segurar o pouco de pano fechado atrás.  

Porta do quarto aberto, olhei o corredor e calculei quantos passos até a porta da sala de cirurgia... ( mais de cinquenta quilômetros,  aff) .  O jeito mais digno de se chegar até lá era encostar-me à parede e permanecer em contato com ela, curvada para frente, olhos no chão para não ser reconhecida, como sempre acontece em momentos constrangedores.  Aí lembrei da toquinha fashion e percebi que estava irreconhecível, o que gerou em mim um laivo de dignidade.

Passei para o corredor grudando o "latifúndio dorsal" na parede, pois estava encurvada para frente tentando proteger a dignidade do hemisfério sul... Hoje parece engraçado, mas no momento, foi a coisa mais constrangedora que havia vivido.

E como o pano não fechava atrás totalmente, não era fácil deslizar pela parede com a velocidade e desenvoltura que eu desejava.   Obviamente, duas pessoas vinham ao longe pelo corredor e eu estaquei, de olhos no chão e elas vinham conversando distraídas, e de repente, me viram!  Como eu sei?  Elas ficaram em silêncio!  Aquela interrupção que pesa no ar e fica claro que elas estão segurando o riso como uma bola debaixo d'água.  Tenho certeza que falam de mim até hoje!  Aquela criatura grotesca encostada, semi nua no corredor da clínica.

Desculpe-me o parênteses, mas QUE TIPO DE CLÍNICA DEIXA O PACIENTE DE BUMBUM E ETC DE FORA NO MEIO DO CORREDOR ONDE TODOS PASSAM! AHHHHHHHHHHHH!

Pronto!  Esse desabafo ficou represado por décadas!  Sinto-me muito melhor!

Finalmente avisto as maçanetas da porta do centro cirúrgico, atravesso em tempo recorde e nem lembrei de me inclinar para frente.  Quando fechei a porta atrás de mim, tive apenas alguns segundos de alívio!

Virei para ver o centro cirúrgico e havia dois homens ( os médicos)  de cueca conversando amenidades.  Voltei à minha posição arcada para frente e nem podia me virar para correr!  Os dois olharam para mim sem espanto e disseram:  - Pode deitar-se aí que já vamos começar!

Sabe quando passam centenas de pensamentos em sua cabeça em alguns segundos?  Pois é!  

Sem brincadeira, pensei algumas coisas como:

-  Será que estou no lugar certo?
-  E se esses caras forem estupradores?
-  Vou sair de costas para não dar muita bandeira?
- Por que meu marido não fez vasectomia, miserável?!
- Eu quero a minha mãe!
- Se vou deitar ali, como será o processo com a batinha? Ao deitar, a bata vai parar na cintura... 

Lembro-me que suei frio.  Não havia dormido à noite porque nunca antes e nem depois disso havia feito uma cirurgia.  Agora, furar meu umbigo e cortar minhas trompas parecia chupar pirulito!  

Bem, deitei lá, gente!  Os médicos acabaram de se vestir sem pressa.  

Resignei-me a ficar ali, "relampeando" como dizia minha avó quando ficávamos sem calcinha na infância!  Sim, vó, relampeei legal!  

Os médicos se aproximaram, um de cada lado, e finalmente cobriram minhas vergonhas.  Não olharam e nem falaram nada.  Um deles aplicou alguma coisa na veia do meu braço que fez a sala toda dar duas capotadas e voltar ao normal.

Os dois recomeçaram a conversar e eu fiquei ali aguardando o próximo passo.

O meu médico finalmente olhou pra mim e levou um susto e disse: - Ué, você não dormiu?
Olhei para  ele calmamente, agora que todos os hemisférios estavam protegidos e disse: 
- Era para dormir?  Ele fez que sim com a cabeça perguntando se eu estava nervosa.  Respondi que não e o outro moço aplicou mais alguma coisa em mim e nada de sono! Estava mais acordada que nunca!

O cirurgião fez alguns testes para ver se eu estava anestesiada e disse que iria começar.
E me explicou que iria inserir um tubo no meu umbigo, mostrou os aparelhos que iria usar para a cirurgia.  Lembro-me de uma tesoura minúscula e outras coisinhas que achei curiosas.

Ele avisou que encheria meu abdomen de ar e o fez e rimos todos quando eu disse: - AH! agora já sei como se sente uma bola de basquete!

O procedimento corria normalmente e ele explicava cada passo, já que eu estava acordada.

Aí aconteceu algo ainda mais constrangedor:  dei um tapão na cara do cirurgião!  Sério mesmo! Daqueles muito bem dados!

Ele olhou para mim assustado e eu estava ainda mais assustada que ele.  Graças a Deus, ele era bem humorado e riu perguntando:  O que é isso? Está doendo alguma coisa?

Eu respondi que não, mas que meu nariz estava coçando muito.  E minha mão continuava no ar como que querendo flutuar e ele pegou meu braço e o amarrou, dizendo: - Esse aqui é o MEU nariz!

Voltou-se para mim rindo muito e disse:  Não está coçando lá dentro do nariz, né?  Vou coçar para você, mas só se for por fora!  Rimos alto os três e eu já me sentia em casa!

Disse que era na ponta do nariz.  Ele coçou para mim!  E voltamos ao que interessava.

Quando tudo terminou ele me disse que eu iria ajudar no processo de retirar o ar da minha barriga.  Tirou todos os aparelhos de dentro do tubinho que estava no meu umbigo e disse: - agora faça força!  Fiz.  E o ar começou a zunir para fora de mim e foi muito engraçado!  Ele disse que seria muito bom isso porque não teria a cólica pós cirúrgica por causa desse ar preso no meu corpo.

Terminado o procedimento, me puseram numa maca, cobriram todos os hemisférios e fui para o meu quarto sã e salva!

E aí está a minha saga!  Guardei essa história tempo demais!  Foi divertido recordar isso!  Obrigada leitor(a) por me proporcionar essa viagem!


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