terça-feira, 17 de setembro de 2019

Lágrimas Anotadas

Registra, tu mesmo, o meu lamento; 
recolhe as minhas lágrimas em teu odre; 
acaso não estão anotadas em teu livro?
Salmos 56:8


Uma das coisas mais difíceis no momento de angústia e dor é crer que alguém realmente sente como sentimos e pode fazer algo a respeito.

Esse texto de Salmos lembrou-me de algumas coisas muito cruciais para esses momentos de lamento:

1 - Deus REGISTRA o meu lamento

A escrita é uma forma de eternizar, sistematizar e valorizar sentimentos, fatos e pessoas.  

Deus registra minha angústia, como que dizendo: - "Filha, eu sei que está doendo muito e estou deixando anotando aqui que essa dor é intensa e é legítima e que não passou despercebida a mim."

Uma pessoalidade que em si mesma já traz alívio ao coração partido e só em sua tristeza. 

2 - Deus RECOLHE minhas lágrimas

Por que Deus recolhe nossas lágrimas?  Porque é importante para Ele deixar claro para seus filhos que Ele se importa, que cada lágrima conta, assim como cada fio de cabelo que cai, cada palavra que é dita com medo, dor, tristeza e confusão...

Afirmar que há registros dos lamentos e o recolher de lágrimas é uma forma visível e patente de Deus dizer que ele sofre conosco como ninguém mais pode fazer.  

O SENHOR do universo, o DEUS CONOSCO , literalmente, se inclina e ouve e sofre a minha dor.

Esses textos abaixo dizem tudo:

"Em toda a aflição do seu povo ele [DEUS] também se afligiu,[...] Em seu amor e em sua misericórdia ele os resgatou; foi ele que sempre os levantou e os conduziu nos dias passados."  
Isaías 63.9

"Mas Tu enxergas o sofrimento e a dor; observa-os para tomar-los em Tuas mãos..."
Salmo 10.14


"Louvem-no, vocês que temem o Senhor!...]Pois não menosprezou nem repudiou o sofrimento do aflito; não escondeu dele o rosto, mas ouviu o seu grito de socorro."  
Salmo 22.23 e 24

❤ Vivemos como família a tristeza da perda de alguém para lá de querida. É bom saber que Deus está cuidando da Drika lá e de nós aqui!


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Ervas e Cia



Luvas de jardinagem, facas de vários tamanhos, balde, saco de lixo, vassoura, chapéu, camisa de mangas compridas, almofada para os joelhos e vamos lá.  Saio da casa rumo a setenta e cinco metros quadrados de calçada tomada por ervas daninhas. Olhando daqui da porta, nem parece um trabalho assim tão difícil!

Segunda-feira, 8:00 da manhã tem início minha luta contra cardos e abrolhos.  O que parecia simples adquire uma nova perspectiva depois de 4 horas quase ininterruptas de trabalho e apenas três metros quadrados limpos.  Mas nada como algumas horas de descanso para recobrar o ânimo e às 16:00h reinício minha batalha que se estende por mais dois metros quadrados até às 19:30 quando a noite finalmente chega.  

Devo confessar aqui que acordar na terça-feira com o mesmo objetivo da segunda me abalou a disposição consideravelmente, mas consegui me arrastar até lá e o sol parecia mais quente do que no dia anterior, as ervas daninhas que restavam certamente tinham visto o massacre das colegas e se uniram para fazer minha manhã miserável.

Entendi porque elas são chamadas de daninhas, travessas, levadas, invasoras,danosas, nocivas e sáfaras. Com certeza fazem jus a todos esses sinônimos.  Foi um caos. Quanto mais arrancava, mais ervas daninhas havia para tirar. Raízes insanamente longas e resistentes como cordas de nylon. Cheguei a literalmente esfaquear muitas delas com fúria e nada.  Olhavam para mim com uma imponência demoníaca( perdão o exagero).

Quando interrompi meus trabalhos para fazer o almoço, olhei para a calçada e percebi que o progresso dessa manhã estava longe de ser tão bom como de ontem e me sentei no chão, exausta, suada e frustrada.  Quase fiz uma oração, mas não sabia o que dizer. Não era justo chamar Deus para resolver algo que eu mesma tinha inventado.

A tarde de terça foi ainda mais frustrante do que a  manhã. O sol parecia brilhar só para mim com toda a sua intensidade, era tanto calor que me dava arrepio de frio, se você entende o que quero dizer. Some a isso as várias pessoas que passaram a pé e de carro com discursos como:  

  • "É só a senhora contratar alguém para fazer isso!"
  • " Você sabe que elas vão nascer de novo, né?"
  • "Tem uns produtos ótimos para matar ervas daninhas."
  • "Saia desse sol, você vai ficar doente!"
  • Pare com isso, já tomou tempo demais!"
  • "Cadê o homem dessa casa?"
  • "A senhora devia trabalhar para o condomínio!"

Sei que Jó vai virar no túmulo agora, mas eu entendi um pouco do que ele quis dizer com a expressão "consoladores molestos" , caramba! É muito cacique e só eu de índia! Aff

Bem, a terça se foi e com ela pouco mais do que um terço da imensa,interminável, miserável, desgraçada calçada!

Quando bati na cama, doía até para fechar os olhos.  O que houve com aquela mulher forte e incansável do domingo passado?  Descobri músculos no meu corpo que nem sabia que existiam. O cansaço era tanto que era impossível dormir. Era uma dor generalizada e só mesmo um Flexalgin pôde acalmar aquele estado de quase morte.  Dormi o sono dos anjos!

Aí chegou a quarta-feira! Ânimo recobrado? É ruim, hein?  Ao avistar aquela calçada, tinha certeza que alguém a tinha feito ainda maior durante a noite, pelo menos a parte ainda não limpa.
Foi duro começar o dia, os intervalos de descanso formam muitos e a coisa parecia mesmo empenhada em não render.

Foi ali, ajoelhada naquela calçada mais daninha do que nunca que experimentei algo diferente.  Não busquei por isso, mas olhando todas aquelas pequenas plantinhas nas brechas dos tijolinhos, a vontade de desistir, as minhas facas já muito gastas e perdendo o fio, minhas mãos cheias de bolhas comecei a ver muito mais do que um problema botânico. Aquilo assumiu uma dimensão pessoal e refleti como o descuido com a alma pode gerar processos e ações danosos ao meu coração tanto quanto esse jardim indesejado em minha calçada.

Não pense que essa nova percepção trouxe alívio ao trabalho quase escravo a que me submeti naquela semana, quem dera!  
Mas percebi algumas coisas que, talvez, Deus já tivesse dito de outras formas e eu não ouvi.

E foi incrível poder perceber que, como as ervas daninhas, tenho em mim costumes, pensamentos, comportamentos que não foram arrancados quando surgiram, ainda que eu tenha notado que eram ruins logo de cara, mas optei por deixar para lá.  E agora, estão tão arraigados e diversificados como essas plantinhas nas canaletas da minha alma.

À medida que o dia passava , o cansaço da mesmice, das mesmas ervas de novo, de novo e de novo fazia com que eu achasse que estava trabalhando em vão, que ela voltariam, até os jardineiros que cuidam do condomínio me diziam isso.  E percebi que o mesmo se dá comigo e meus pecados intencionais, aos quais alimento, ignoro e cometo sem querer pensar nas consequências porque vai dar trabalho, vai acontecer de novo, sei lá.

Uma outra coisa muito interessante que se deu nesse mesmo dia é que a minha faca perdeu o corte e encurtou-se.  Havia perdido a capacidade de atingir a raiz das ervas entre os tijolos. Cortava só as folhas. Outra lição desenhada por Deus me dizendo que há coisas que vão exigir novas ações, novos métodos.  Tentar se livrar daquilo que alimentamos em nós vai dar um pouco mais de trabalho.

Você pode pensar que essas elucubrações da manhã fizeram o serviço na calçada render horrores, né?  Que nada, a coisa parecia andar para trás. Mil a zero para as daninhas. Cheguei a amaldiçoar Adão e Eva pelo vacilo e os cardos e abrolhos resultantes.  Mas fui fazer o almoço pensando em tudo aquilo, nas calçadas que propiciam o surgimento das ervas, e no que tenho feito para que o nocivo se acomode nas brechas da minha alma.  E naquela manhã, muitas gente fez os comentários que já citei acima que, inconscientemente faziam-me crer que meu trabalho era mesmo em vão! Apenas uma vizinha parou e me disse que estava impressionada como estava ficando legal!  E percebi que na luta contra nossos próprios males, estamos muitas vezes sozinhos. Não posso contar nem mesmo comigo. Mas foi interessante como o comentário dela me animou e me apeguei a ele para continuar. E é exatamente isso que Deus faz conosco.  Dá-nos sempre as condições e ânimo novo para recomeçarmos toda vez, porque ervas daninhas são recorrentes, assim como nossa "marvada" carne!

Na quarta à tarde o sol parecia dez vezes mais quente do que o normal.  Meu chapéu de lona já estava úmido do suor da manhã e agora molhado e pesado, atrapalhava minha visão.
Eu fui para o trabalho sem nenhuma disposição espiritual a despeito de todos os insights.  Queria terminar aquele serviço maluco que eu havia inventado.

Lembro-me que amarrei a faca num cabo de vassoura para poder trabalhar de pé.  O serviço foi mais rápido, mas não demorou para eu notar que muitas ervas ficaram ocultas entre um tijolo e outro porque não dava para vê-las.  Tive que voltar a trabalhar de joelhos! Sugestivo, não? E quando ajoelhei e olhei o serviço feito em pé percebi que tive que voltar e fazer de novo.  E disse em voz alta: - OK, Senhor, valeu o soco no estômago!

E a tarde seguiu lenta, quente e cheia de ervas daninhas para todo lugar que se olhasse. Tive que observar  o que já tinha feito várias vezes para comparar e me convencer que estava valendo a pena. Ainda que muitas vezes ficasse claro que havia muito mais a fazer do que o já alcançado.  O mesmo olhar trazia alento e "desacorçoo"! Isso também deixou sua marca em minha alma!

Outra lição de objeto foi o deparar-me com uma erva nova, com lindas florzinhas brancas.  Confesso que doeu muito arrancá-la. Imagine só, em meio a uma faxina botânica, você dá de cara com uma erva daninha em flor! Como se livrar disso?  É desconcertante. Parece um crime! Mas tive que fazê-lo. E pensei: Meu Deus, que loucura esse trabalho, estou aprendendo mais aqui do que poderia imaginar! E lá fui eu pensar naquilo que dava flor e até fruto na minha alma, mas que deveria ser arrancado assim mesmo!  Isso deu mais trabalho do que você possa imaginar. Tenho verdadeiros bouquets de simpáticas e venenosas flores em minha alma. E se já estão dando flor é porque já são perfeitamente adaptadas.

O dia acabou e as ervas daninhas restantes me aguardavam no dia seguinte. A manhã começou com muito esparadrapo nas luvas já cheias de buracos.  Sete band-aids para proteger as bolhas e um desânimo de matar. Era o quarto dia e tinha chegado à metade do serviço …
Devo esclarecer que, à medida que ia limpando as pequenas sessões da calçada, ia colocando cimento entre os tijolos para vedar e impedir por um tempo maior o renascimento das ervas.  Lembre-se, no jardim e na vida, não basta livrar-se do mal, é preciso tomar medidas de cautela e prevenção para que ele não tenha condições favoráveis e reapareça, cresça e tome conta de tudo de novo.  Não basta esvaziar a casa, é preciso enchê-la de Deus. Gente cheia do Espírito não abre brecha e nem faz provisão para carne!

Devo confessar que na manhã da quinta feira, o quarto dia desse trabalho miserável, eu estava com raiva de mim e do mundo.  Já nem cumprimentava os motoqueiros do condomínio em suas rondas como sempre faço. Ficava irritada ao ouvir o barulho dos carros que passavam em frente à minha casa e davam aquela diminuída de quem quer ver de perto a louca da quadra 3 lote 9...hunf!

E tenho mesmo que admitir que àquela altura, eu já estava questionando minha sanidade.
Seria isso auto flagelação? O que queria provar?
Mas, na verdade, estava exausta antes mesmo de começar o dia.  Uma exaustão fisico, psíquico espiritual… Era muita coisa junta e eu queria desaparecer pelos vãos daqueles tijolinhos intermináveis.  

Meus pulsos e joelhos estavam, como diziam antigamente, em petição de miséria. Não sabia se aquilo era dor ou queimação, ou ambos.  Mal conseguia segurar a faca e fazer os movimentos adequados à missão de desarraigar as ervas daninhas.

Fim da manhã, mal humor, cansaço extremo e um metro quadrado de serviço feito! É isso! E pensar que quando comecei acreditava que levaria um dia ( 7 a 9 horas) de trabalho  Que coisa ridícula!

Na quinta à tarde radicalizei.  Você já deve estar cansado, mas agora terá que ir comigo até o fim, meu caro leitor.  Miséria detesta solidão, então, vamos em frente.

Comecei mais cedo, às quinze horas.  O sol ainda estava muito quente! E pela primeira vez chorei ali ao perceber que tinha que terminar aquilo que comecei.  Podia chamar alguém pra fazer isso para mim? Sim, podia, mas tinha virado uma questão de honra!
Meu marido, penalizado veio me ajudar, mas a tarefa era minha, minha invenção.

A uma certa altura, vendo que ele estava cansado e entediado daquele serviço, perguntei: "Você deve estar com muita raiva de mim, né, amor?"  A resposta dele veio pronta e direta: -"Não estou com raiva, não! Só acho que você é louca!" E, como poucas vezes acontece, não respondi! Ele ficou mais um pouco e saiu e eu gargalhei alto ali sozinha… A louca do residencial Ana Ville!  Dá um filme de terror!

A sexta-feira chegou!  Eu sabia que era o último dia.  Viajaríamos no sábado de madrugada.  Eu ainda precisava pintar a calçada para garantir a perfeita vedação das brechas, mas ainda havia muita calçada para limpar. Acordei às 6:30h e trabalhei como louca até às 12:30h.   Sapequei um almoço e descansei um pouco. Sentada diante da TV, minha mente não assistia nada, só pensava em terminar aquela tarefa de doida. Mas os prognósticos não eram bons! Os quatro dias anteriores mostravam que o tempo restante da tarde não seria suficiente para terminar.  Pulei da poltrona às 14h, sol escaldante e lá fui eu! Arrumei outra faca maior e ignorei a dor e as bolhas e trabalhei como só uma doida faria. Era erva daninha voando para todo lado. Gemi e até gritei algumas vezes… Você precisava estar lá para ver...melhor não!
Trabalhei por duas horas e olhei para o que ainda faltava e vi que não ia dar tempo!  Chorei! E então, ali de joelhos na calçada eu disse em voz alta: - "Deus, por favor, eu sei que o Senhor não tem que me ajudar nessa tarefa idiota que eu mesma me impus, mas eu preciso terminar isso.  Por favor, mande seus anjos para me ajudar e me dê forças para terminar isso hoje!"

Confesso mais uma vez que não esperava nenhuma intervenção sobrenatural e me pus a trabalhar de novo.  Duas horas mais tarde, Samuel aparece para ver meu progresso e exclama:- "Que isso, amor? Você avançou muito agora à tarde! Falta muito pouco!"  

Dei uma parada e olhei incrédula para ele e depois para o que eu tinha feito e levei um susto!
Faltava muito pouco para terminar.  E eu disse a ele que aquilo era milagre.  Eu fiz um terço da calçada em menos de três horas!  Foram os anjos comigo, e Deus sabe que eu não estou brincando!  Não tinha como eu fazer isso sozinha. Nem nos dias em que eu trabalhei com mais dedicação consegui fazer tanto.  Até o Samuel animou e veio me ajudar a terminar. Terminamos lá pelas 17h… Nessa hora, eu chorei, ri, gritei e deitei no meio da calçada feliz e exausta!  Olhar aquela calçada livre de ervas daninhas foi uma das sensações mais gostosas que experimentei ultimamente. Parece insano, eu sei. E é mesmo! Mas, quer saber? Eu consegui!  E saí com muito mais do que uma calçada limpa e devidamente pintada. Sim, ainda gastei até às 19h pintando a calçada. Ok, pode me chamar de louca agora! Você tem toda a razão.

O melhor de tudo é saber que Deus não apenas me ensinou coisas incríveis para minha vida espiritual.  Ele literalmente veio me acudir na minha tarefa. E como nas minhas lutas contra o pecado e o meu próprio mal, só posso terminar e ver milagres quando permito que Ele participe desse processo de limpeza da alma!  Só me arrependo de não ter pedido ajuda antes! Poderia ter sido tão mais rápido! Mas agradeço a Ele essa semana doida!

E o mais legal é que ao olhar para a minha calçada linda e pintada, eu sei exatamente o que tem ali embaixo e entendo que tenho que ficar de olho! Não posso me deixar enganar! Ervas daninhas são sorrateiras e oportunistas como minha carne.  Elas só precisam de pequenas brechas para florescer! E eu não vou descuidar delas, nem lá na calçada e nem aqui no coração! E que Deus me ajude a não esquecer jamais dessa experiência! E que as ervas daninhas não nos dominem!




quarta-feira, 19 de dezembro de 2018


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Conto de Fadas? Nem pensar!


Eu tinha 17 anos, ele tinha 21.  Duas crianças cheias de sonhos e planos que se encontram pessoalmente depois de anos de trocas de cartas entre "amigos".  Uma cumplicidade com cara de amor eterno, mas que vivia limitada pelo medo e incertezas próprias da mocidade.
Depois de 4 anos de amizade feita de tinta, papel e coração, os dois decidem que é preciso levar o relacionamento para um nível mais sério.  Eu, indo para São Paulo iniciar a faculdade e ele para Formoso das Trombas - TO começando seu pastorado.

Namoro à distância não dá certo!  Ouvimos muito essa frase e vivemos para contrariá-la.

Começamos a namorar no dia 08 de Dezembro de 1980 e cada um rumou para uma distância de 1.350 Km e quase 22 horas um do outro.

Estamos juntos desde então, na verdade , desde 1977, Deus colou nossas almas... há muito tempo...

Muitos perguntam:  Por que deu certo?  E hoje, pensando no nível de comprometimento dos casamentos, eu preciso dizer que, na verdade, só deu certo, por alguns elementos básicos em qualquer relacionamento.

Havia uma paixão que desejava tornar-se amor.  É, eu sei que parece estranho, mas é isso.  Não havia dúvidas que tínhamos uma química incrível.  Era delicioso encontrar, conversar e sentir o corpo tremer quando os dedinhos mindinhos se tocavam sem querer...  Mas sabíamos que paixão e química precisam de toque, de pele, de olho no olho, e não teríamos isso.  Então, mesmo sem nomear como faço agora, decidimos que queríamos levar essa química para uma reação mais permanente, chamada COMPROMISSO!

Sabíamos que passaríamos muito tempo longe e a comunicação, ao contrário de hoje seria por carta( 2 a 5 dias para chegar ao destino) e pelo "molecular"( Uma central telefônica de onde um "moleque" corria para chamar o Samuel para atender a ligação).  Tudo parecia contribuir para o fracasso, mas fizemos um compromisso muito sério e pesado :  - Nós estamos nisso para casar, não vale a pena ficar namorando à distância para dizer que temos alguém.

Nos comprometemos em dizer a verdade, fosse ela boa ou ruim.  E colocamos nosso compromisso nas mãos de Deus.  É incrível como Deus tem uma queda por relacionamentos... 

Foram dois anos e meio de poucos encontros, enxurradas de cartas que eram lidas bem devagar para não acabarem logo e escritas praticamente todos os dias e sem esperar pela resposta.  Alguns dias, escrevíamos de 5 a 8 cartas um para o outro.  E a química foi dando lugar ao pacto, ao compromisso, ao desejo de estar junto para sempre.

Cada carta, cada conversa ao telefone e os raros encontros pessoais foram tecendo uma história que nunca acabou até hoje.

É incrível como choramos de emoção por contos de fadas e nem percebemos que os melhores contos de todos são os Contos de Deus.  Por que Deus não leva a gente só até ao "viveram felizes para sempre", que é o ponto onde os contos e muita gente para de ser feliz.  Deus vai além e nos ensina o preço do "para sempre" que é difícil demais porque tudo o que é bom dá muito trabalho!

Nesses tempo de namoro à distância vivemos crises de dúvidas, fomos balançados pela ameaça presencial de outros prováveis amores, por pessoas que "torciam contra", por crises de "abstinência" um do outro...

O conto de Deus é feito de tantos detalhes bons e ruins, de tantos pedaços de vida e coração que parece uma colcha de retalhos sem nexo, mas que faz todo o sentido à medida que se vive.

Olhar para trás me faz sorrir ao lembrar da timidez do primeiro beijo, da delícia de se reconhecer o outro na multidão das rodoviárias, dos abraços que queriam compensar a ausência e prover calor até ao próximo encontro... Ah!  Se eu pudesse passar adiante esse senso de compromisso tão essencial à qualquer relação... Se eu pudesse chacoalhar essa geração que joga a toalha no primeiro problema, que busca a própria felicidade e que acha que vai mesmo saber escolher sozinho com quem passar a vida.  

Sabe, Jesus não apenas resolve a morte e dá a vida eterna a quem se entrega a Ele.  Ele vai com a gente, ele ajuda a fazer escolhas inteligentes e não tem coisa mais burra do que um ser humano apaixonado!  Jesus resolve nossa burrice e faz a gente escolher não o príncipe e a princesa, mas quem vai ser usado por Ele para nos moldar.  

Ah! Samuel e eu já passamos muita raiva um com o outro!  Muita dor, muito ressentimento e necessidade de perdão e recomeço. E ainda passamos.  Mas já vivenciamos muito amor, perdão, risadas, alegrias, paz, cumplicidade e tudo mais que Deus planejou que significasse 'FELIZES PARA SEMPRE".

Eu sou feliz para sempre todo dia... e isso custa suor e lágrimas muitas vezes, joelho no chão, DRs , e tudo o mais que não se vê em nenhum final de novela.

Deus não faz novela, Deus nos leva pela vida para que experimentemos dEle nela e para que quem anda com a gente possa ter vontade de provar dEle também.

Então pare de perder tempo em querer ser feliz.  Pare tudo e se entregue para Deus e diga:  Senhor Jesus, escreve sua história em nós!  E prepare-se, a carruagem é supersônica! 



quinta-feira, 7 de junho de 2018




Marcando o Caminho
Provérbios 22.28


“Não removas os marcos antigos que puseram vossos pais.”

Esta recomendação para os filhos traz aos pais uma enorme responsabilidade! 


Provérbios deixa claro a nossa missão como pais: - temos que marcar o caminho para os filhos.

Gosto muito de pescar e, muitas vezes, as pescarias ficam em lugares de mata fechada onde precisamos abrir a trilha com facão.  Uma vez que a trilha foi aberta, não há como errar o caminho para o rio.  

O mesmo se dá com essa responsabilidade de marcarmos o caminho para os nossos filhos.  Existem procedimentos muito importantes para que possamos realmente deixar claro a melhor  trilha a seguir, mas há algo essencial nessa missão paterna:


- Precisamos andar no caminho a ser marcado.  Muitos pais exigem dos filhos uma forma de ser que eles mesmos nunca experimentaram.  

É o velho faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço!  A coerência entre palavras e ações é crucial nessa jornada de marcar o caminho para os filhos;

- Precisamos experimentar a vida com Deus. Filho de crente não é crentinho!  Óbvio! Mas filho de gente que se diz crente, mas não vive a vida como quem nasceu de novo em Cristo, dificilmente serão convencidos que Deus “funciona”.  

Nossos filhos têm um radar para perceber nossas intenções e emoções que não condizem com nossas ações.  Não adianta discurso teologicamente correto, filhos são marcados pelo que leem em nós mais do que por nossas palavras. 

Enquanto nossos filhos andam conosco, eles precisam vivenciar nosso amor e relação com Deus.  Se for assim, eles poderão até decidir andar em outra direção, mas saberão que o melhor caminho é o que deixamos marcado. Somos chamados por Deus para sermos pontos de referência para a próxima geração.

Pense e viva Deus a sério todos os dias! 

                        
O melhor legado são suas marcas e pegadas pelo caminho do SENHOR.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Feto incompatível com a vida, será?





Alice viveu fora do útero pouco mais que um dia!  O diagnóstico era-lhe desfavorável desde o início. Um útero mais seco do que o normal era um mau sinal, mas ela aguentou firme.   Rins deficitários e ela guerreou pela sua própria vida.  

Cresceu, foi formada, tamanho e peso normais, um absurdo em tese para um feto espremido e sem condições  de vida.

A cada exame pré-natal havia uma notícia surpreendente.  Alice resistia até que uma ordem superior dissesse o contrário.

E os pais, “do lado de fora”, oravam, choravam, clamavam, sonhavam o impossível.  Assustavam-se com as novidades dos exames, ousavam crer, temiam, tremiam, duvidavam, criam.  Viviam a montanha russa de qualquer ser humano que admite sua limitação e fé frágil.  Mas resolveram esperar, como Alice, pela segunda ordem!

Então, chega a hora de Alice enfrentar o mundo hostil aqui fora.  Nasceu linda, enorme e a gente acreditou na vida.  Torcemos, oramos!  Admirei o pai, Leonardo, que fez planos, comprou enxoval, não deixou só espaço para os diagnósticos e prognósticos.  Olhou para sua filhinha como quem tem toda a vida ali, frágil e fora de seu controle.  Segundos, era tudo o que tinha!  Ligada a aparelhos, a incompatibilidade com a vida estreitou as possibilidades e os laços de amor. 

Mas ele sonhou, e amou sua filhinha com tanta sofreguidão como quem quer viver a vida toda em um abraço, em uma oração, em declarações de amor profundas.  Tomou a filhinha nos braços, frágil, indo-se, mas realizou seus sonhos ali: a abraçou, conversou com ela, tocou seu corpinho frágil, orou com ela e por ela, agradeceu a Deus  em meio a dor e despedida.

Ele a teve o tempo todo, a teve por toda a sua curta vida.  Algumas horas apenas!  Que pais podem dizer isso?  Que tiveram seus filhos debaixo de amor e oração sua vida toda?

Aprendi muito com essa jornada dolorosa de Leo e Elisa.  A compatibilidade com a vida para a Alice foi tão curta, mas ela experimentou milagres ainda no útero, vivenciou amor em forma de orações, sonhos e planos.   Um infinito de tudo enquanto sua vida durou!

E você se foi, Alice.  Mas sua vida tão curta, causou impacto  em mim!  Me fez crer que a vida é isso mesmo:  temos que fazer diferença na história de outros.  Você veio e precisou só de algumas horas para fazer isso.  Deus usou sua vida desde o ventre para chacoalhar o espírito de tantos.

E fica aqui a pergunta:  Meu tempo de vida tem feito diferença  e causado impacto eterno por onde passo? 


Deus usou você, Alice, um feto incompatível com a vida, para gerar em mim uma nova perspectiva de quem tenho que ser em nome de Deus!  Obrigada, Senhor, por uma lição tão grande vinda de alguém tão pequena e frágil! 

Incompatibilidade com a vida é  passar em branco  enquanto existe!  Essa não é a sua história, Alice!  Você foi a pessoa mais compatível com a vida que conheci!

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018



Cirurgia Hilária


Essa história aconteceu comigo há exatos trinta e um  anos, mas parece que foi ontem.

Não fiz nenhuma outra cirurgia depois disso, então, não sei se as coisas melhoraram desde então.

Bem, aos vinte e três anos, casada há quatro anos, decidimos que não queríamos ter mais filhos além dos nossos dois.  

Depois de muitas conversas com o médico tentando me convencer que era muito nova, que poderia perder um dos filhos, acabei por convencê-lo de fazer a esterectomia por laparoscopia( pelo umbigo).

E no dia seguinte, lá estava eu na clínica para o procedimento.  A coisa começou a complicar quando me deram aquela "batinha"  quase frente única curtíssima para vestir .  Não era momento para discutir a moda hospitalar, mas ao vesti-la pensei que estavam de brincadeira comigo!  Ela não protegia nada nem atrás e nem abaixo da cintura, isto é, apenas cobria o que você não queria esconder e o resto estava, como direi, devassado!

Como se não bastasse, trouxeram uma toca e dois sapatinhos de pano para vestir que completaram a figura grotesca que me tornei.  Se você está achando muito, ainda tem mais.  Isso aconteceu há três décadas e lembro como se fosse hoje!  Assim você tem ideia da situação!

A enfermeira entrou no quarto e apenas disse:  a sala de cirurgia fica no corredor à direita, segunda porta!

Confesso que fiquei esperando o momento que ela traria uma maca ou pelo menos uma cadeira de roda para me conduzir até lá, mas ela "jogou a bomba" e saiu.  Olhei pra o meu marido e disse: - Vou sair assim no corredor da clínica?    Ele me olhou como todo marido em situação perigosa e apenas concordou querendo não se envolver demais no caso!

Bem, vendo que não havia remédio para isso a  não ser enfrentar o corredor da humilhação, pedi que ele olhasse como estava o trânsito no corredor.  Sempre passava uma ou duas pessoas, mas estava calmo.

A batinha não colaborava para tornar o momento menos constrangedor, era de um tecido sem flexibilidade alguma.  Eu puxava para tampar o hemisfério sul, o hemisfério posterior ficava exposto.  Descobri que a melhor forma era andar curvada para frente e segurar o pouco de pano fechado atrás.  

Porta do quarto aberto, olhei o corredor e calculei quantos passos até a porta da sala de cirurgia... ( mais de cinquenta quilômetros,  aff) .  O jeito mais digno de se chegar até lá era encostar-me à parede e permanecer em contato com ela, curvada para frente, olhos no chão para não ser reconhecida, como sempre acontece em momentos constrangedores.  Aí lembrei da toquinha fashion e percebi que estava irreconhecível, o que gerou em mim um laivo de dignidade.

Passei para o corredor grudando o "latifúndio dorsal" na parede, pois estava encurvada para frente tentando proteger a dignidade do hemisfério sul... Hoje parece engraçado, mas no momento, foi a coisa mais constrangedora que havia vivido.

E como o pano não fechava atrás totalmente, não era fácil deslizar pela parede com a velocidade e desenvoltura que eu desejava.   Obviamente, duas pessoas vinham ao longe pelo corredor e eu estaquei, de olhos no chão e elas vinham conversando distraídas, e de repente, me viram!  Como eu sei?  Elas ficaram em silêncio!  Aquela interrupção que pesa no ar e fica claro que elas estão segurando o riso como uma bola debaixo d'água.  Tenho certeza que falam de mim até hoje!  Aquela criatura grotesca encostada, semi nua no corredor da clínica.

Desculpe-me o parênteses, mas QUE TIPO DE CLÍNICA DEIXA O PACIENTE DE BUMBUM E ETC DE FORA NO MEIO DO CORREDOR ONDE TODOS PASSAM! AHHHHHHHHHHHH!

Pronto!  Esse desabafo ficou represado por décadas!  Sinto-me muito melhor!

Finalmente avisto as maçanetas da porta do centro cirúrgico, atravesso em tempo recorde e nem lembrei de me inclinar para frente.  Quando fechei a porta atrás de mim, tive apenas alguns segundos de alívio!

Virei para ver o centro cirúrgico e havia dois homens ( os médicos)  de cueca conversando amenidades.  Voltei à minha posição arcada para frente e nem podia me virar para correr!  Os dois olharam para mim sem espanto e disseram:  - Pode deitar-se aí que já vamos começar!

Sabe quando passam centenas de pensamentos em sua cabeça em alguns segundos?  Pois é!  

Sem brincadeira, pensei algumas coisas como:

-  Será que estou no lugar certo?
-  E se esses caras forem estupradores?
-  Vou sair de costas para não dar muita bandeira?
- Por que meu marido não fez vasectomia, miserável?!
- Eu quero a minha mãe!
- Se vou deitar ali, como será o processo com a batinha? Ao deitar, a bata vai parar na cintura... 

Lembro-me que suei frio.  Não havia dormido à noite porque nunca antes e nem depois disso havia feito uma cirurgia.  Agora, furar meu umbigo e cortar minhas trompas parecia chupar pirulito!  

Bem, deitei lá, gente!  Os médicos acabaram de se vestir sem pressa.  

Resignei-me a ficar ali, "relampeando" como dizia minha avó quando ficávamos sem calcinha na infância!  Sim, vó, relampeei legal!  

Os médicos se aproximaram, um de cada lado, e finalmente cobriram minhas vergonhas.  Não olharam e nem falaram nada.  Um deles aplicou alguma coisa na veia do meu braço que fez a sala toda dar duas capotadas e voltar ao normal.

Os dois recomeçaram a conversar e eu fiquei ali aguardando o próximo passo.

O meu médico finalmente olhou pra mim e levou um susto e disse: - Ué, você não dormiu?
Olhei para  ele calmamente, agora que todos os hemisférios estavam protegidos e disse: 
- Era para dormir?  Ele fez que sim com a cabeça perguntando se eu estava nervosa.  Respondi que não e o outro moço aplicou mais alguma coisa em mim e nada de sono! Estava mais acordada que nunca!

O cirurgião fez alguns testes para ver se eu estava anestesiada e disse que iria começar.
E me explicou que iria inserir um tubo no meu umbigo, mostrou os aparelhos que iria usar para a cirurgia.  Lembro-me de uma tesoura minúscula e outras coisinhas que achei curiosas.

Ele avisou que encheria meu abdomen de ar e o fez e rimos todos quando eu disse: - AH! agora já sei como se sente uma bola de basquete!

O procedimento corria normalmente e ele explicava cada passo, já que eu estava acordada.

Aí aconteceu algo ainda mais constrangedor:  dei um tapão na cara do cirurgião!  Sério mesmo! Daqueles muito bem dados!

Ele olhou para mim assustado e eu estava ainda mais assustada que ele.  Graças a Deus, ele era bem humorado e riu perguntando:  O que é isso? Está doendo alguma coisa?

Eu respondi que não, mas que meu nariz estava coçando muito.  E minha mão continuava no ar como que querendo flutuar e ele pegou meu braço e o amarrou, dizendo: - Esse aqui é o MEU nariz!

Voltou-se para mim rindo muito e disse:  Não está coçando lá dentro do nariz, né?  Vou coçar para você, mas só se for por fora!  Rimos alto os três e eu já me sentia em casa!

Disse que era na ponta do nariz.  Ele coçou para mim!  E voltamos ao que interessava.

Quando tudo terminou ele me disse que eu iria ajudar no processo de retirar o ar da minha barriga.  Tirou todos os aparelhos de dentro do tubinho que estava no meu umbigo e disse: - agora faça força!  Fiz.  E o ar começou a zunir para fora de mim e foi muito engraçado!  Ele disse que seria muito bom isso porque não teria a cólica pós cirúrgica por causa desse ar preso no meu corpo.

Terminado o procedimento, me puseram numa maca, cobriram todos os hemisférios e fui para o meu quarto sã e salva!

E aí está a minha saga!  Guardei essa história tempo demais!  Foi divertido recordar isso!  Obrigada leitor(a) por me proporcionar essa viagem!