terça-feira, 30 de janeiro de 2018




Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito no Getsêmani ! Que conversa difícil!


E, indo um pouco mais adiante, Jesus se prostrou no chão e começou a orar para que, se fosse possível, aquela hora se afastasse dele. E disse: Pai, todas as coisas são possíveis para ti; afasta de mim este cálice. Contudo, não o que eu quero, mas o que tu queres.
Marcos 14.35 e 36

Não há nada mais frustrante do que orar por algo e receber um não como resposta de Deus!
E agora há pouco, estava já deitada para dormir e orei por uma família querida que teve uma perda muito dolorida esses dias.  Estive com eles em oração e na expectativa de um milagre.  A resposta foi não.  Ainda estou digerindo este sonoro NÃO  de Deus.  Obviamente, foi muito mais pesado e ainda está sendo para eles, mas percebia  até há pouco em meu coração, um ácido corroendo minha fé.

Então, esse mesmo Deus, invade minha mente e me faz lembrar de Jesus.  Ninguém orou tanto como Ele e, na minha opinião, ninguém precisava menos disso que Ele.  Mas Jesus passava noites inteiras em conversa com o Pai.  

As estatísticas de respostas SIM para Jesus foram também incríveis no que dizia respeito aos outros.  Cem porcento das vezes as pessoas saíam da presença de Jesus colhendo o fruto do consentimento do Pai.  Sim para a visão ao cego de nascença, sim para as pernas do coxo, vida sim para a filha de Jairo e para o filho da viúva.  Pele nova para leprosos, mente restaurada aos lunáticos e os sins davam luz e novidade de vida a centenas e milhares.

Orações que não conheciam silêncio, Não ou talvez, sempre o SIM.  

Mas era chegada a hora do Filho do Homem!  Jesus finalmente precisa terminar o que foi começado antes da fundação do mundo entre Eles: a redenção da humanidade.

Faltava menos que uma semana no calendário humano, mas uma eternidade já havia se passado.

Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito no Getsêmani ! Que conversa difícil!

Jesus chama três de seus mais íntimos amigos e discípulos para orar com Ele.  Por que?  Havia angústia em seu coração, um mal estar de quem já sente o calafrio da morte.  Não da morte que está chegando, mas da morte a  quem Ele iria, deliberadamente, se entregar.

Jesus deixa os amigos sonolentos e dá alguns passos para estar a sós com o Pai.  O Pai que sempre esteve lá por Ele, a quem Ele obedeceu sempre sem discutir.  Um pai que morria de amores por Ele e por quem o Filho faria qualquer coisa.

Mas a angústia era de morte, a dor era insuportável, o peso era do pecado do mundo todo de todos os tempos e Jesus se inclina exaurido para orar.  O pedido é simples e claro: - Pai,se possível, passa de mim este cálice! Mas não faça o que eu quero e sim a Tua vontade!

Há silêncio entre Eles!  Um silêncio que carrega uma resposta óbvia nunca dada antes entre  os dois: - NÃO!

Jesus ainda volta a pedir mais duas vezes e como antes da fundação do mundo, os planos permanecem os mesmos.

E, ao contrário de mim, Jesus não questiona, não se rebela, não pede satisfações.  Ele retoma suas forças, levanta-se e declara aos sonolentos discípulos : - É chegada a hora do Filho do Homem.  Vamos!

E vai, obediente para a morte de cruz!  Debaixo do olhar do Pai silencioso.

Na cruz outra oração; uma exclamação de dor de quem sofre por tantas coisas tão intensas, mas apenas uma é digna de nota: - Deus meu, Deus meu por que me desamparaste?  Agora é mais que um NÃO, é mais que silêncio, Deus se retira!  O cheiro do pecado o faz abandonar o homem/Deus na cruz!  

E então, entendi os Nãos!  Nãos para Deus não podem ser Sim!  Porque Ele tem Seus planos, porque Ele não muda, porque Ele está no futuro, porque Ele não negocia a minha ou a salvação de ninguém.  Ele disse não para Seu Filho, para que todos nós pudéssemos receber nEle o poder de sermos filhos também.  E um Pai não pode titubear e dizer sim só porque o filho pede um sim.  Deus é tão santo e puro em Suas intenções que Ele vai e leva Jesus ao Calvário porque era a hora do Sim para a vida eterna de muitos.  

E quando pensei no Não do Getsêmani eu entendi, SENHOR!  E agradeci por todos os seus nãos para mim!  Admito que não gostei de nenhum deles, mas essa visita ao Getsêmani essa noite me fez amá-lO mais pelos Seus Nãos.  Obrigada por não se deixar levar por minhas chantagens emocionais, ou minhas ameaças e rebeldia!  Obrigada, Jesus, por engolir aquele amargo Não e me ensinar que mesmo no Não podemos deixar o jardim da angústia consolados e empoderados para obedecer e aceitar a vontade do Pai. Uma vontade que visa estampar a glória de Deus em minha história e por isso haverá sins e nãos e nenhum deles virá por engano! Obrigada por fazer-me entender isso, SENHOR!



segunda-feira, 22 de janeiro de 2018


“SEPSES”


..."não chegastes a lamentar..." (1 Coríntios 5.2)

Essa expressão do apóstolo Paulo soa ao mesmo tempo como espanto e lamento diante da atitude da igreja em relação ao pecado no meio da comunidade.   A igreja havia perdido a capacidade de lamentar por aquilo que feria a santidade de Deus.

Creio que vivemos esse momento em nossas comunidades cristãs, independente da denominação, onde se faz necessário reafirmar posições , mas ela está entorpecida e, porque não dizer distraída para perceber que é preciso se manifestar, dizer não, disciplinar, admoestar em amor porque somos os despenseiros dos mistérios, da verdade de Deus.

Não é preciso ir muito longe para constatar que não há mais lamento pelo pecado, ao contrário, o aplaudimos, “curtimos” e deixamos para lá como se fosse algo de cunho pessoal, como se um órgão infeccionado não arriscasse a saúde do corpo. 

E assim, como corpo de Cristo, corremos o risco de “sepses”, isto é, uma infecção grave não tratada que se espalha pela circulação sanguínea colocando a vida em risco.

Assim como no corpo humano, a sepses acontece devido ao sistema imune enfraquecido, algo em nós está gradativa e gravemente enfraquecendo.  A igreja perdeu a capacidade de lamentar pelo pecado e de agir como quem está sob uma grave ameaça. 

Desde os líderes até os membros das comunidades cristãs parecem não saber como agir diante dessa nova moralidade onde tudo é permitido em nome do amor e do direito de se ser feliz.  Como se obedecer aos princípios de Deus fosse algo ultrapassado e sinônimo de intolerância.

E temos colhido frutos dessa condescendência que teme mais ao homem do que a Deus. Os cristãos têm tanto ou mais problemas do que qualquer outra pessoa avessa à fé. Nossos casamentos e lares estão ruindo, somos desonestos, maus pagadores, lascivos, nossos filhos engrossam as filas dos pacientes com problemas psiquiátricos e tantas outras coisas sobre as quais deveríamos lamentar. 

O diagnóstico é grave e exige medidas urgentes!  Precisamos voltar ao  primeiro amor e lembrar de onde caímos, nos arrependermos e voltarmos à prática das primeiras obras.(Apocalipse 2.4 e 5)

É preciso que entendamos a necessidade de arrependimento e rendição ao SENHOR da igreja para que Ele nos trate e devolva ao Seu corpo saúde.  E que possamos voltar a ser luz e sal ainda que isso nos custe o pescoço! Que a graça tão pregada seja um meio pelo qual cresçamos em Deus e não uma desculpa para pecarmos e aplaudirmos o erro alheio! 





terça-feira, 2 de janeiro de 2018



UMA SEXTA-FEIRA INCOMUM
      
Aquela sexta-feira não era como as demais.  Imagino que Cirineu ainda não sabia, mas sua vida e história seriam mudadas para sempre.   A cidade estava agitada pelos boatos.  Jesus, o homem de Nazaré , o profeta, o chamado Messias havia sido preso dias antes. Os líderes religiosos tentaram manter sigilo, mas a notícia se espalhou.  Jesus está sendo julgado e o povo não sabe bem porquê, mas a manhã está movimentada pelos rumores da crucificação.

        Cirineu acompanha tudo com uma curiosidade própria de quem não tem mais nada para fazer. 

As horas passam e agora já não é mais boato, o povo vai se espalhando pelas ruas estreitas da cidade, formando imensos cordões à espera dos infelizes que virão carregando cruzes,em direção ao Monte da Caveira.

A gritaria e o choro são ensurdecedores.  Mulheres desesperadas pelos seus filhos e pelo Rabi que vai ser crucificado com ladrões.     Os soldados romanos, como que amortecidos pelo hábito, divertem-se batendo nos condenados.

 Cirineu se deixa ir com a multidão, impermeável ao sofrimento.   A trilha até o Gólgota   é longa e pesada.  A cruz carregada pelos condenados já é parte do castigo ainda por vir.    A multidão alterna gritos, choros e cusparada em sinal de dor e agravo.  

Um dos prisioneiros, visivelmente extenuado pelos maltratos sofridos, já não consegue mais levar a cruz.  Penso que Cirineu observava aquele estranho com solidariedade. 

           Até aquele momento não havia entre eles qualquer identificação.  Talvez passe pela cabeça de Cirineu que até outro dia, o povo amava e corria atrás de Jesus de Nazaré, como alguém extraordinário.  Hoje, a mesma multidão exige sua crucificação com uma frieza assustadora.  Jesus fica caído enquanto os soldados o açoitam impiedosamente exigindo que se levante.  Ele faz menção de se erguer mas não consegue.

O centurião romano olha em volta buscando algo.  Seus olhos correm pela multidão e param sobre Cirineu que devolve o olhar de forma tímida.   O soldado grita:  -  "Hei!  Você aí!"  Cirineu, não muito certo se era com ele ou não, titubeia e aguarda para ter certeza.

O centurião, já sem paciência, se aproxima dele e agarra-lhe o braço com força dizendo: "- Venha, judeu, ajude esse infeliz a carregar a cruz."   Pego de surpresa e praticamente arrastado para o meio da rua, Cirineu obedece automaticamente, meio confuso.  Os demais soldados levantam a cruz e Cirineu é posto violentamente debaixo dela.  A multidão se agita, uns achando graça, outros pedindo para que ele ajude Jesus.

O momento parecia ter congelado o sangue de Cirineu.   Sentiu um calafrio na espinha e o peso do madeiro no ombro.   Um cheiro de sangue invadiu o ambiente e a sua alma.   Com a mesma rapidez e violência Jesus é posto de pé ao lado de Cirineu.  Seu rosto estava carregado de um sofrimento sobre-humano.  O ódio era perceptível nos olhos dos dois criminosos que reagiam à turba que os provocava.

Jesus estava quieto, numa passividade deliberada.  A inocência estava estampada em seu rosto ensanguentado. Será que Cirineu olhou para aqueles olhos carregados de uma paz desconcertante?   Será que ele percebeu no andar cambaleante de Jesus  um propósito firme?

Ao chegarem ao Monte da Caveira, Cirineu  deixou a cruz cair no chão e inclinou-se para recuperar o fôlego.   O empurraram para o meio do povo e imagino que ele deixou-se estar ali com os olhos fitos em Jesus.

         Será que Cirineu viu os cravos traspassarem suas mãos e pés? Ele o viu clamar a Deus?  Ouviu quando um dos ladrões pediu para ser lembrado por Ele?  Será que testemunhou as trevas e o terremoto logo depois que Jesus entregou seu espírito?

E a volta de Cirineu para sua casa? Que sexta-feira foi aquela?  Com a roupa suja do sangue de Jesus, ainda confuso...  Será que a vida desse homem foi mudada como a nossa no caminho do calvário?

Cirineu andou lado a lado com o Salvador do mundo, e viu toda a sua trajetória até a morte de cruz...  E ainda me pergunto se o sangue que tingira suas vestes foi derramado também sobre seu coração!

Ouso afirmar que esse homem nunca mais foi o mesmo.  Não dá para estar tão próximo da salvação e sair ileso...   Espero poder encontrar Cirineu no céu  e saber com detalhes tudo o que ele vivenciou!