Cirurgia Hilária
Essa história aconteceu comigo há exatos trinta e um anos, mas parece que foi ontem.
Não fiz nenhuma outra cirurgia depois disso, então, não sei se as coisas melhoraram desde então.
Bem, aos vinte e três anos, casada há quatro anos, decidimos que não queríamos ter mais filhos além dos nossos dois.
Depois de muitas conversas com o médico tentando me convencer que era muito nova, que poderia perder um dos filhos, acabei por convencê-lo de fazer a esterectomia por laparoscopia( pelo umbigo).
E no dia seguinte, lá estava eu na clínica para o procedimento. A coisa começou a complicar quando me deram aquela "batinha" quase frente única curtíssima para vestir . Não era momento para discutir a moda hospitalar, mas ao vesti-la pensei que estavam de brincadeira comigo! Ela não protegia nada nem atrás e nem abaixo da cintura, isto é, apenas cobria o que você não queria esconder e o resto estava, como direi, devassado!
Como se não bastasse, trouxeram uma toca e dois sapatinhos de pano para vestir que completaram a figura grotesca que me tornei. Se você está achando muito, ainda tem mais. Isso aconteceu há três décadas e lembro como se fosse hoje! Assim você tem ideia da situação!
A enfermeira entrou no quarto e apenas disse: a sala de cirurgia fica no corredor à direita, segunda porta!
Confesso que fiquei esperando o momento que ela traria uma maca ou pelo menos uma cadeira de roda para me conduzir até lá, mas ela "jogou a bomba" e saiu. Olhei pra o meu marido e disse: - Vou sair assim no corredor da clínica? Ele me olhou como todo marido em situação perigosa e apenas concordou querendo não se envolver demais no caso!
Bem, vendo que não havia remédio para isso a não ser enfrentar o corredor da humilhação, pedi que ele olhasse como estava o trânsito no corredor. Sempre passava uma ou duas pessoas, mas estava calmo.
A batinha não colaborava para tornar o momento menos constrangedor, era de um tecido sem flexibilidade alguma. Eu puxava para tampar o hemisfério sul, o hemisfério posterior ficava exposto. Descobri que a melhor forma era andar curvada para frente e segurar o pouco de pano fechado atrás.
Porta do quarto aberto, olhei o corredor e calculei quantos passos até a porta da sala de cirurgia... ( mais de cinquenta quilômetros, aff) . O jeito mais digno de se chegar até lá era encostar-me à parede e permanecer em contato com ela, curvada para frente, olhos no chão para não ser reconhecida, como sempre acontece em momentos constrangedores. Aí lembrei da toquinha fashion e percebi que estava irreconhecível, o que gerou em mim um laivo de dignidade.
Passei para o corredor grudando o "latifúndio dorsal" na parede, pois estava encurvada para frente tentando proteger a dignidade do hemisfério sul... Hoje parece engraçado, mas no momento, foi a coisa mais constrangedora que havia vivido.
E como o pano não fechava atrás totalmente, não era fácil deslizar pela parede com a velocidade e desenvoltura que eu desejava. Obviamente, duas pessoas vinham ao longe pelo corredor e eu estaquei, de olhos no chão e elas vinham conversando distraídas, e de repente, me viram! Como eu sei? Elas ficaram em silêncio! Aquela interrupção que pesa no ar e fica claro que elas estão segurando o riso como uma bola debaixo d'água. Tenho certeza que falam de mim até hoje! Aquela criatura grotesca encostada, semi nua no corredor da clínica.
Desculpe-me o parênteses, mas QUE TIPO DE CLÍNICA DEIXA O PACIENTE DE BUMBUM E ETC DE FORA NO MEIO DO CORREDOR ONDE TODOS PASSAM! AHHHHHHHHHHHH!
Pronto! Esse desabafo ficou represado por décadas! Sinto-me muito melhor!
Finalmente avisto as maçanetas da porta do centro cirúrgico, atravesso em tempo recorde e nem lembrei de me inclinar para frente. Quando fechei a porta atrás de mim, tive apenas alguns segundos de alívio!
Virei para ver o centro cirúrgico e havia dois homens ( os médicos) de cueca conversando amenidades. Voltei à minha posição arcada para frente e nem podia me virar para correr! Os dois olharam para mim sem espanto e disseram: - Pode deitar-se aí que já vamos começar!
Sabe quando passam centenas de pensamentos em sua cabeça em alguns segundos? Pois é!
Sem brincadeira, pensei algumas coisas como:
- Será que estou no lugar certo?
- E se esses caras forem estupradores?
- Vou sair de costas para não dar muita bandeira?
- Por que meu marido não fez vasectomia, miserável?!
- Eu quero a minha mãe!
- Se vou deitar ali, como será o processo com a batinha? Ao deitar, a bata vai parar na cintura...
Lembro-me que suei frio. Não havia dormido à noite porque nunca antes e nem depois disso havia feito uma cirurgia. Agora, furar meu umbigo e cortar minhas trompas parecia chupar pirulito!
Bem, deitei lá, gente! Os médicos acabaram de se vestir sem pressa.
Resignei-me a ficar ali, "relampeando" como dizia minha avó quando ficávamos sem calcinha na infância! Sim, vó, relampeei legal!
Os médicos se aproximaram, um de cada lado, e finalmente cobriram minhas vergonhas. Não olharam e nem falaram nada. Um deles aplicou alguma coisa na veia do meu braço que fez a sala toda dar duas capotadas e voltar ao normal.
Os dois recomeçaram a conversar e eu fiquei ali aguardando o próximo passo.
O meu médico finalmente olhou pra mim e levou um susto e disse: - Ué, você não dormiu?
Olhei para ele calmamente, agora que todos os hemisférios estavam protegidos e disse:
- Era para dormir? Ele fez que sim com a cabeça perguntando se eu estava nervosa. Respondi que não e o outro moço aplicou mais alguma coisa em mim e nada de sono! Estava mais acordada que nunca!
O cirurgião fez alguns testes para ver se eu estava anestesiada e disse que iria começar.
E me explicou que iria inserir um tubo no meu umbigo, mostrou os aparelhos que iria usar para a cirurgia. Lembro-me de uma tesoura minúscula e outras coisinhas que achei curiosas.
Ele avisou que encheria meu abdomen de ar e o fez e rimos todos quando eu disse: - AH! agora já sei como se sente uma bola de basquete!
O procedimento corria normalmente e ele explicava cada passo, já que eu estava acordada.
Aí aconteceu algo ainda mais constrangedor: dei um tapão na cara do cirurgião! Sério mesmo! Daqueles muito bem dados!
Ele olhou para mim assustado e eu estava ainda mais assustada que ele. Graças a Deus, ele era bem humorado e riu perguntando: O que é isso? Está doendo alguma coisa?
Eu respondi que não, mas que meu nariz estava coçando muito. E minha mão continuava no ar como que querendo flutuar e ele pegou meu braço e o amarrou, dizendo: - Esse aqui é o MEU nariz!
Voltou-se para mim rindo muito e disse: Não está coçando lá dentro do nariz, né? Vou coçar para você, mas só se for por fora! Rimos alto os três e eu já me sentia em casa!
Disse que era na ponta do nariz. Ele coçou para mim! E voltamos ao que interessava.
Quando tudo terminou ele me disse que eu iria ajudar no processo de retirar o ar da minha barriga. Tirou todos os aparelhos de dentro do tubinho que estava no meu umbigo e disse: - agora faça força! Fiz. E o ar começou a zunir para fora de mim e foi muito engraçado! Ele disse que seria muito bom isso porque não teria a cólica pós cirúrgica por causa desse ar preso no meu corpo.
Terminado o procedimento, me puseram numa maca, cobriram todos os hemisférios e fui para o meu quarto sã e salva!
E aí está a minha saga! Guardei essa história tempo demais! Foi divertido recordar isso! Obrigada leitor(a) por me proporcionar essa viagem!
