Alice
viveu fora do útero pouco mais que um dia!
O diagnóstico era-lhe desfavorável desde o início. Um útero mais seco do
que o normal era um mau sinal, mas ela aguentou firme. Rins
deficitários e ela guerreou pela sua própria vida.
Cresceu,
foi formada, tamanho e peso normais, um absurdo em tese para um feto espremido
e sem condições de vida.
A
cada exame pré-natal havia uma notícia surpreendente. Alice resistia até que uma ordem superior
dissesse o contrário.
E os
pais, “do lado de fora”, oravam, choravam, clamavam, sonhavam o
impossível. Assustavam-se com as
novidades dos exames, ousavam crer, temiam, tremiam, duvidavam, criam. Viviam a montanha russa de qualquer ser
humano que admite sua limitação e fé frágil.
Mas resolveram esperar, como Alice, pela segunda ordem!
Então,
chega a hora de Alice enfrentar o mundo hostil aqui fora. Nasceu linda, enorme e a gente acreditou na
vida. Torcemos, oramos! Admirei o pai, Leonardo, que fez planos,
comprou enxoval, não deixou só espaço para os diagnósticos e prognósticos. Olhou para sua filhinha como quem tem toda a
vida ali, frágil e fora de seu controle.
Segundos, era tudo o que tinha!
Ligada a aparelhos, a incompatibilidade com a vida estreitou as
possibilidades e os laços de amor.
Mas
ele sonhou, e amou sua filhinha com tanta sofreguidão como quem quer viver a
vida toda em um abraço, em uma oração, em declarações de amor profundas. Tomou a filhinha nos braços, frágil, indo-se,
mas realizou seus sonhos ali: a abraçou, conversou com ela, tocou seu corpinho
frágil, orou com ela e por ela, agradeceu a Deus em meio a dor e despedida.
Ele
a teve o tempo todo, a teve por toda a sua curta vida. Algumas horas apenas! Que pais podem dizer isso? Que tiveram seus filhos debaixo de amor e
oração sua vida toda?
Aprendi
muito com essa jornada dolorosa de Leo e Elisa.
A compatibilidade com a vida para a Alice foi tão curta, mas ela
experimentou milagres ainda no útero, vivenciou amor em forma de orações,
sonhos e planos. Um infinito de tudo
enquanto sua vida durou!
E
você se foi, Alice. Mas sua vida tão
curta, causou impacto em mim! Me fez crer que a vida é isso mesmo: temos que fazer diferença na história de
outros. Você veio e precisou só de algumas
horas para fazer isso. Deus usou sua
vida desde o ventre para chacoalhar o espírito de tantos.
E
fica aqui a pergunta: Meu tempo de vida
tem feito diferença e causado impacto eterno
por onde passo?
Deus
usou você, Alice, um feto incompatível com a vida, para gerar em mim uma nova
perspectiva de quem tenho que ser em nome de Deus! Obrigada, Senhor, por uma lição tão grande
vinda de alguém tão pequena e frágil!
Incompatibilidade
com a vida é passar em branco enquanto existe! Essa não é a sua história, Alice! Você foi a pessoa mais compatível com a vida
que conheci!

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