Luvas de jardinagem, facas de vários tamanhos, balde, saco de lixo, vassoura, chapéu, camisa de mangas compridas, almofada para os joelhos e vamos lá. Saio da casa rumo a setenta e cinco metros quadrados de calçada tomada por ervas daninhas. Olhando daqui da porta, nem parece um trabalho assim tão difícil!
Segunda-feira, 8:00 da manhã tem início minha luta contra cardos e abrolhos. O que parecia simples adquire uma nova perspectiva depois de 4 horas quase ininterruptas de trabalho e apenas três metros quadrados limpos. Mas nada como algumas horas de descanso para recobrar o ânimo e às 16:00h reinício minha batalha que se estende por mais dois metros quadrados até às 19:30 quando a noite finalmente chega.
Devo confessar aqui que acordar na terça-feira com o mesmo objetivo da segunda me abalou a disposição consideravelmente, mas consegui me arrastar até lá e o sol parecia mais quente do que no dia anterior, as ervas daninhas que restavam certamente tinham visto o massacre das colegas e se uniram para fazer minha manhã miserável.
Entendi porque elas são chamadas de daninhas, travessas, levadas, invasoras,danosas, nocivas e sáfaras. Com certeza fazem jus a todos esses sinônimos. Foi um caos. Quanto mais arrancava, mais ervas daninhas havia para tirar. Raízes insanamente longas e resistentes como cordas de nylon. Cheguei a literalmente esfaquear muitas delas com fúria e nada. Olhavam para mim com uma imponência demoníaca( perdão o exagero).
Quando interrompi meus trabalhos para fazer o almoço, olhei para a calçada e percebi que o progresso dessa manhã estava longe de ser tão bom como de ontem e me sentei no chão, exausta, suada e frustrada. Quase fiz uma oração, mas não sabia o que dizer. Não era justo chamar Deus para resolver algo que eu mesma tinha inventado.
A tarde de terça foi ainda mais frustrante do que a manhã. O sol parecia brilhar só para mim com toda a sua intensidade, era tanto calor que me dava arrepio de frio, se você entende o que quero dizer. Some a isso as várias pessoas que passaram a pé e de carro com discursos como:
- "É só a senhora contratar alguém para fazer isso!"
- " Você sabe que elas vão nascer de novo, né?"
- "Tem uns produtos ótimos para matar ervas daninhas."
- "Saia desse sol, você vai ficar doente!"
- Pare com isso, já tomou tempo demais!"
- "Cadê o homem dessa casa?"
- "A senhora devia trabalhar para o condomínio!"
Sei que Jó vai virar no túmulo agora, mas eu entendi um pouco do que ele quis dizer com a expressão "consoladores molestos" , caramba! É muito cacique e só eu de índia! Aff
Bem, a terça se foi e com ela pouco mais do que um terço da imensa,interminável, miserável, desgraçada calçada!
Quando bati na cama, doía até para fechar os olhos. O que houve com aquela mulher forte e incansável do domingo passado? Descobri músculos no meu corpo que nem sabia que existiam. O cansaço era tanto que era impossível dormir. Era uma dor generalizada e só mesmo um Flexalgin pôde acalmar aquele estado de quase morte. Dormi o sono dos anjos!
Aí chegou a quarta-feira! Ânimo recobrado? É ruim, hein? Ao avistar aquela calçada, tinha certeza que alguém a tinha feito ainda maior durante a noite, pelo menos a parte ainda não limpa.
Foi duro começar o dia, os intervalos de descanso formam muitos e a coisa parecia mesmo empenhada em não render.
Foi ali, ajoelhada naquela calçada mais daninha do que nunca que experimentei algo diferente. Não busquei por isso, mas olhando todas aquelas pequenas plantinhas nas brechas dos tijolinhos, a vontade de desistir, as minhas facas já muito gastas e perdendo o fio, minhas mãos cheias de bolhas comecei a ver muito mais do que um problema botânico. Aquilo assumiu uma dimensão pessoal e refleti como o descuido com a alma pode gerar processos e ações danosos ao meu coração tanto quanto esse jardim indesejado em minha calçada.
Não pense que essa nova percepção trouxe alívio ao trabalho quase escravo a que me submeti naquela semana, quem dera!
Mas percebi algumas coisas que, talvez, Deus já tivesse dito de outras formas e eu não ouvi.
E foi incrível poder perceber que, como as ervas daninhas, tenho em mim costumes, pensamentos, comportamentos que não foram arrancados quando surgiram, ainda que eu tenha notado que eram ruins logo de cara, mas optei por deixar para lá. E agora, estão tão arraigados e diversificados como essas plantinhas nas canaletas da minha alma.
À medida que o dia passava , o cansaço da mesmice, das mesmas ervas de novo, de novo e de novo fazia com que eu achasse que estava trabalhando em vão, que ela voltariam, até os jardineiros que cuidam do condomínio me diziam isso. E percebi que o mesmo se dá comigo e meus pecados intencionais, aos quais alimento, ignoro e cometo sem querer pensar nas consequências porque vai dar trabalho, vai acontecer de novo, sei lá.
Uma outra coisa muito interessante que se deu nesse mesmo dia é que a minha faca perdeu o corte e encurtou-se. Havia perdido a capacidade de atingir a raiz das ervas entre os tijolos. Cortava só as folhas. Outra lição desenhada por Deus me dizendo que há coisas que vão exigir novas ações, novos métodos. Tentar se livrar daquilo que alimentamos em nós vai dar um pouco mais de trabalho.
Você pode pensar que essas elucubrações da manhã fizeram o serviço na calçada render horrores, né? Que nada, a coisa parecia andar para trás. Mil a zero para as daninhas. Cheguei a amaldiçoar Adão e Eva pelo vacilo e os cardos e abrolhos resultantes. Mas fui fazer o almoço pensando em tudo aquilo, nas calçadas que propiciam o surgimento das ervas, e no que tenho feito para que o nocivo se acomode nas brechas da minha alma. E naquela manhã, muitas gente fez os comentários que já citei acima que, inconscientemente faziam-me crer que meu trabalho era mesmo em vão! Apenas uma vizinha parou e me disse que estava impressionada como estava ficando legal! E percebi que na luta contra nossos próprios males, estamos muitas vezes sozinhos. Não posso contar nem mesmo comigo. Mas foi interessante como o comentário dela me animou e me apeguei a ele para continuar. E é exatamente isso que Deus faz conosco. Dá-nos sempre as condições e ânimo novo para recomeçarmos toda vez, porque ervas daninhas são recorrentes, assim como nossa "marvada" carne!
Na quarta à tarde o sol parecia dez vezes mais quente do que o normal. Meu chapéu de lona já estava úmido do suor da manhã e agora molhado e pesado, atrapalhava minha visão.
Eu fui para o trabalho sem nenhuma disposição espiritual a despeito de todos os insights. Queria terminar aquele serviço maluco que eu havia inventado.
Lembro-me que amarrei a faca num cabo de vassoura para poder trabalhar de pé. O serviço foi mais rápido, mas não demorou para eu notar que muitas ervas ficaram ocultas entre um tijolo e outro porque não dava para vê-las. Tive que voltar a trabalhar de joelhos! Sugestivo, não? E quando ajoelhei e olhei o serviço feito em pé percebi que tive que voltar e fazer de novo. E disse em voz alta: - OK, Senhor, valeu o soco no estômago!
E a tarde seguiu lenta, quente e cheia de ervas daninhas para todo lugar que se olhasse. Tive que observar o que já tinha feito várias vezes para comparar e me convencer que estava valendo a pena. Ainda que muitas vezes ficasse claro que havia muito mais a fazer do que o já alcançado. O mesmo olhar trazia alento e "desacorçoo"! Isso também deixou sua marca em minha alma!
O dia acabou e as ervas daninhas restantes me aguardavam no dia seguinte. A manhã começou com muito esparadrapo nas luvas já cheias de buracos. Sete band-aids para proteger as bolhas e um desânimo de matar. Era o quarto dia e tinha chegado à metade do serviço …
Devo esclarecer que, à medida que ia limpando as pequenas sessões da calçada, ia colocando cimento entre os tijolos para vedar e impedir por um tempo maior o renascimento das ervas. Lembre-se, no jardim e na vida, não basta livrar-se do mal, é preciso tomar medidas de cautela e prevenção para que ele não tenha condições favoráveis e reapareça, cresça e tome conta de tudo de novo. Não basta esvaziar a casa, é preciso enchê-la de Deus. Gente cheia do Espírito não abre brecha e nem faz provisão para carne!
Devo confessar que na manhã da quinta feira, o quarto dia desse trabalho miserável, eu estava com raiva de mim e do mundo. Já nem cumprimentava os motoqueiros do condomínio em suas rondas como sempre faço. Ficava irritada ao ouvir o barulho dos carros que passavam em frente à minha casa e davam aquela diminuída de quem quer ver de perto a louca da quadra 3 lote 9...hunf!
E tenho mesmo que admitir que àquela altura, eu já estava questionando minha sanidade.
Seria isso auto flagelação? O que queria provar?
Mas, na verdade, estava exausta antes mesmo de começar o dia. Uma exaustão fisico, psíquico espiritual… Era muita coisa junta e eu queria desaparecer pelos vãos daqueles tijolinhos intermináveis.
Meus pulsos e joelhos estavam, como diziam antigamente, em petição de miséria. Não sabia se aquilo era dor ou queimação, ou ambos. Mal conseguia segurar a faca e fazer os movimentos adequados à missão de desarraigar as ervas daninhas.
Fim da manhã, mal humor, cansaço extremo e um metro quadrado de serviço feito! É isso! E pensar que quando comecei acreditava que levaria um dia ( 7 a 9 horas) de trabalho Que coisa ridícula!
Na quinta à tarde radicalizei. Você já deve estar cansado, mas agora terá que ir comigo até o fim, meu caro leitor. Miséria detesta solidão, então, vamos em frente.
Comecei mais cedo, às quinze horas. O sol ainda estava muito quente! E pela primeira vez chorei ali ao perceber que tinha que terminar aquilo que comecei. Podia chamar alguém pra fazer isso para mim? Sim, podia, mas tinha virado uma questão de honra!
Meu marido, penalizado veio me ajudar, mas a tarefa era minha, minha invenção.
A uma certa altura, vendo que ele estava cansado e entediado daquele serviço, perguntei: "Você deve estar com muita raiva de mim, né, amor?" A resposta dele veio pronta e direta: -"Não estou com raiva, não! Só acho que você é louca!" E, como poucas vezes acontece, não respondi! Ele ficou mais um pouco e saiu e eu gargalhei alto ali sozinha… A louca do residencial Ana Ville! Dá um filme de terror!
A sexta-feira chegou! Eu sabia que era o último dia. Viajaríamos no sábado de madrugada. Eu ainda precisava pintar a calçada para garantir a perfeita vedação das brechas, mas ainda havia muita calçada para limpar. Acordei às 6:30h e trabalhei como louca até às 12:30h. Sapequei um almoço e descansei um pouco. Sentada diante da TV, minha mente não assistia nada, só pensava em terminar aquela tarefa de doida. Mas os prognósticos não eram bons! Os quatro dias anteriores mostravam que o tempo restante da tarde não seria suficiente para terminar. Pulei da poltrona às 14h, sol escaldante e lá fui eu! Arrumei outra faca maior e ignorei a dor e as bolhas e trabalhei como só uma doida faria. Era erva daninha voando para todo lado. Gemi e até gritei algumas vezes… Você precisava estar lá para ver...melhor não!
Trabalhei por duas horas e olhei para o que ainda faltava e vi que não ia dar tempo! Chorei! E então, ali de joelhos na calçada eu disse em voz alta: - "Deus, por favor, eu sei que o Senhor não tem que me ajudar nessa tarefa idiota que eu mesma me impus, mas eu preciso terminar isso. Por favor, mande seus anjos para me ajudar e me dê forças para terminar isso hoje!"
Confesso mais uma vez que não esperava nenhuma intervenção sobrenatural e me pus a trabalhar de novo. Duas horas mais tarde, Samuel aparece para ver meu progresso e exclama:- "Que isso, amor? Você avançou muito agora à tarde! Falta muito pouco!"
Dei uma parada e olhei incrédula para ele e depois para o que eu tinha feito e levei um susto!
Faltava muito pouco para terminar. E eu disse a ele que aquilo era milagre. Eu fiz um terço da calçada em menos de três horas! Foram os anjos comigo, e Deus sabe que eu não estou brincando! Não tinha como eu fazer isso sozinha. Nem nos dias em que eu trabalhei com mais dedicação consegui fazer tanto. Até o Samuel animou e veio me ajudar a terminar. Terminamos lá pelas 17h… Nessa hora, eu chorei, ri, gritei e deitei no meio da calçada feliz e exausta! Olhar aquela calçada livre de ervas daninhas foi uma das sensações mais gostosas que experimentei ultimamente. Parece insano, eu sei. E é mesmo! Mas, quer saber? Eu consegui! E saí com muito mais do que uma calçada limpa e devidamente pintada. Sim, ainda gastei até às 19h pintando a calçada. Ok, pode me chamar de louca agora! Você tem toda a razão.
E o mais legal é que ao olhar para a minha calçada linda e pintada, eu sei exatamente o que tem ali embaixo e entendo que tenho que ficar de olho! Não posso me deixar enganar! Ervas daninhas são sorrateiras e oportunistas como minha carne. Elas só precisam de pequenas brechas para florescer! E eu não vou descuidar delas, nem lá na calçada e nem aqui no coração! E que Deus me ajude a não esquecer jamais dessa experiência! E que as ervas daninhas não nos dominem!
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirParabéns pelo trabalho! Quanto mais árduo, melhor a recompensa! Lindo ensinamento!
ResponderExcluirQue Bela, experiência. PARABÉNS pelo foco e determinação. �� Aprendi mto!
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